>Exclusão e desigualdade social, sinônimos de uma dura realidade    
 

     As desigualdades sociais marcam a história brasileira e mundial desde que o homem passou à viver em sociedade, isso ocorre tanto em países ricos quanto em países pobres. No Brasil um dos campeões em desigualdade é a dramática situação de exclusão social que tem sua origem no processo inicial de estruturação da sociedade brasileira.
Desde o período colonial, onde as terras eram monopolizadas por uma pequena parcela de latifundiários e com base na escravidão, foi o estopim para a rígida desigualdade que hoje sofremos. O monopólio de terras, não teve término, nem quando o fim da escravatura foi declarado. A diferença social começou a ser sentida, entre trabalhadores e uma pequena parcela de grandes latifundiários rurais e esta situação delineou a má distribuição de renda no país.
Esta realidade é facilmente verificada nos dias de hoje, mesmo se analisarmos a região sul e sudeste, consideradas as mais ricas e próperas do Brasil - onde há pouca concentração de municípios com índices de exclusão social. A população destas localidades apesar de já escolarizadas e de já terem trabalhado em empregos formais, ainda vivem uma situação de desemprego e de renda insuficiente.
Todo este histórico revela que a grande maioria da população deseja estabilidade pessoal, não só em relação a empregos, mais principalmente habitação. Por isso o desejo de muitas pessoas é a conquista de um imóvel próprio, para alcançar o tão sonhado equilíbrio pessoal.
Para manter esta aspiração viva, a maior necessidade é vencer obstáculos, as profundas desigualdades existentes na infra-estrutura de uma cidade, fazem da melhoria dos serviços de abastecimento de água, saneamento básico, limpeza urbana, coleta de lixo, galerias pluviais, asfalto entre outras, necessidades um objetivo a ser alcançado.
Um bom exemplo para ilustrar esta realidade é o caso de alguns loteamentos comercializados no município de Pinhais. Algumas imobiliárias comercializam lotes praticamente sem nenhuma estrutura para moradia, sem aterro suficiente, sem saneamento básico, sem rede de esgoto e principalmente terrenos considerados área de proteção ambiental, por estarem situados bem próximo das margens de alguns rios. Estas condições, fizeram com que moradores de regiões como estas, procurassem algum tipo de auxílio para sanar as dificuldades que enfrentam.


Estado da rua durante épocas
de chuvas.

Em épocas de estiagem
(mesma rua da foto acima).

Em entrevista com moradores do bairro Vale da Boa Esperança em Pinhais, verificamos o quanto às desigualdades existentes em uma cidade, podem afetar diretamente quem deseja adquirir, um imóvel.
Nivaldo Aparecido dos Santos, morador do loteamento conta que procurou por diversas vezes a prefeitura do município e também a imobiliária responsável pela venda dos terrenos, a “Celso Ribas Empreendimentos”, mas nada foi feito em prol da população. “Nenhum órgão liga para as nossas dificuldades, a prefeitura joga a responsabilidade para a imobiliária e vice- versa”, diz Nivaldo.
As ruas estavam em estado de precariedade. Segundo Santos, desde a data da compra do lote, levou cerca de cinco anos para que sua rua fosse pavimentada com paralelepípedos. Conta também que aterrou seu terreno o máximo que sua renda pode sustentar, mas ainda assim ficou mais baixo que a rua, sofrendo constantes alagamentos em dias de chuva.
“Construí minha casa e de minha mãe com muito esforço e dedicação, perguntei aos responsáveis pela pavimentação, se haveria necessidade em levantar mais o terreno, mas a resposta foi que não necessitaria, pois a rua ficaria mais baixa ou no nível dos lotes, não foi isso que aconteceu.


Residência de Nivaldo Santos
nos dias de hoje.

Casa alagada do morador
Nivaldo Santos.

Pouco tempo depois que construí as residências, tive que demoli-las, pois a água do rio junto ao esgoto inundava as casas em poucos minutos”.
A perda de bens como materiais de construção, móveis, eletrodomésticos, madeiras, pisos, cerâmicas, cimento entre outros, fez com que Nivaldo tivesse que aumentar cerca de 30 centímetros o nível das casas, para evitar que a enxurrada destruísse tudo que construiu pela segunda vez.
“Tive que desmanchar as casas que construí para aumentar os níveis, pois a rua estava muito alta, perdi todos os pisos entre outros bens, que comprei e estou pagando até hoje, tudo perdido. Levantei cada casa cerca de 30 centímetros do chão, quando chovia as casas eram só lama. Nos que somos pessoas mais simples sem muitos recursos, não temos condições de pagar as prestações do terreno e também construir casas de tempo em tempo, ninguém se importa com nossa situação”, desabafa Santos.
Segundo os moradores, a região é considerada ilegal, por ter o rio a poucos metros das residências. “Minha casa fica a menos de 100 metros do rio, na primeira enchente o rio transbordou levando tudo que havia em sua frente, hoje com a pavimentação este problema diminuiu um pouco, mas se a chuva é intensa, o rio torna a transbordar junto com os esgotos, o cheiro é insuportável. Segundo a imobiliária o rio seria aberto para melhorar a passagem da água da chuva, mas até o momento nada foi feito”, conta Santos.
Assustados com a situação da localidade muitos moradores venderam suas casas e foram morar em outros locais, considerados mais seguros. Segundo Santos todos os seus vizinhos são desconhecidos, pois estão a pouco tempo no local.
Além dos problemas com a chuva e as inundações, os moradores passaram por outras dificuldades. “Todo o bairro necessitava de manilhamento e esgoto, quando as obras começaram, a imobiliária responsável pelo projeto, Celso Ribas Empreendimentos, nos informou que se não pagássemos o manilhamento, não teríamos água encanada em nossas casas, com medo desta ameaça resolvi abrir um poço para armazenagem de água, mas é impossível usar esta água, tem cheiro de esgoto e é suja. Além disso, a Imobiliária me fez uma proposta, depois de muito reclamar do estado em que se encontrava o lote, eles nos ofertaram dois terrenos em Bacaiuva do Sul ou um terreno em Guaratuba em troca do nosso, recusei na hora, não vi vantagem alguma, trabalhamos aqui, nossa vida é aqui, por este motivo comprei o terreno que luto tanto para melhorar”, conta Santos.


Pressionado, Nivaldo se obriga a
abrir poço para utilizar água.


Durante longo tempo os moradores tentaram recorrer junto à imobiliária para obter algum tipo de ajuda em relação a estes problemas. Nada foi feito. Segundo o morador Paulo Lima da Silva, sempre que havia alagamentos tentava contato com a imobiliária mas logo diziam que a responsabilidade do que estava acontecendo era da prefeitura. “A resposta era direta, informavam que não tinham nada a ver com o que estava acontecendo, e jogavam toda a responsabilidade na prefeitura. Os funcionários da Celso Ribas Empreendimento nos trataram bem quando fomos fechar negócio, agora que resolvemos lutar por nossos direitos, nos tratam mal”, desabafa Silva.
Silva conta que sua casa é uma das mais próximas à margem do rio, fica a menos de 15 metros. “Foram no total 3 enchentes, no ultimo alagamento perdi tudo, até meu carro ficou em baixo d’água, para poder começar de novo tive que vendê-lo quase de graça. Ainda tenho esperança que alguém possa nos ajudar”, diz Silva.
Segundo dados do IBGE, o censo de divisão territorial realizado em 2000, o município de Pinhais conta com 102.985 habitantes. O Município conta com um grande número de imobiliárias, que dominam boa parte do mercado de loteamentos. Na hora de buscar uma imobiliária, as pessoas devem se atentar para as seguintes dicas: visite o local certifique-se de que não há indício de brejos, sinais de alagamentos, vertentes de água, entre outros sinais importantes.
Verifique se o terreno é mais alto do que a rua, se existe saneamento básico, manilhamento para esgoto, fornecimento de luz e de água. Além disso, analise o contrato que for assinar, inclusive solicitando à um profissional (advogado) orientação. Estas são atitudes que apesar de algum custo, reduzirão seguramente prejuízos de milhares de reais.

Carla Lima

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