>Moradores lutam por seus direitos como consumidores.    
 

     Glaci, Antonio, Samuel, Valdir, Reinaldo, Maria Cristiane e Cláudia Luciane não são apenas nomes, e sim moradores e sobreviventes de uma descontrolada situação. O direito a moradia é um direito de todos, pois antes mesmo da preocupação com a estabilidade financeira, as pessoas necessitam de uma estabilidade habitacional, mas muitas vezes os direitos e os sonhos desmoronam.

Ao longo de sete anos, Glaci Tkaczuk, moradora do loteamento Jardim Pedro Demeterco, em Pinhais, imaginou estar pagando por um lote de qualidade, até que vivenciou a primeira enchente. A casa ficou ilhada, a lama tomou conta de seu terreno e devido à umidade do solo e a forte chuva, não havia o que pudesse fazer para amenizar a situação que se encontrava.

Glaci conta que para manter seu terreno seco e sem umidade, teria que contratar cerca de 30 caminhões de terra, mas o valor deste aterro é alto e até o momento conseguiu verba para apenas 11 caminhões.

Seu lote e de vários outros moradores foram adquiridos com a Imobiliária AZ Imóveis. Segundo Glaci, durante a vistoria para uma futura compra, todo o lotemanto estava em perfeita ordem, a empresa chegou a prometer que todo o manilhamento seria sem custo algum, para aqueles que fechassem negócio, mas a promessa não foi cumprida. “Eles prometeram o manilhamento! Se eu e meu esposo não tivéssemos providenciado as manilhas, o esgoto estaria até hoje à céu aberto”, conta Glaci.

Durante a construção de sua casa, toda a mão de obra foi particular, inclusive para fazer o saneamento. Quando começou a base de sua moradia, notou que vertia água em todo o terreno, então fez um pequeno aterro, pois na época não havia capital para maiores investimentos, pois além de estarem pagando o financiamento, também tinham o custo com a habitação.

Mesmo em época de estiagem, os terrenos não secam, a umidade toma conta de toda a extensão, dificultando assim qualquer tipo de obra que possa amenizar esta dificuldade.

Antonio da Luz Padilha mora há dois anos no loteamento e diz: “Estou tentando transformar a piscina que me venderam em uma residência”. Seu terreno era tão úmido que na área central do lote havia um lago e até peixes se criavam. “Gastei cerca de R$ 3.000,00 em aterro. Fizemos tudo sozinhos, a imobiliária não cumpriu nem as promessas de saneamento no local, todas as melhorias foram obras da união dos moradores”.

A população locou máquinas para aberturas de ruas, pois a imobiliária prometeu que faria a limpeza dos terrenos e a transformação de área inacessível em vias de acesso, somente após o pagamento do sinal do negócio, mas nada foi feito. “Achamos que a AZ imóveis era uma empresa idônea, por já estar trabalhando há algum tempo em Curitiba e região, mas fomos enganados, o valor do meu terreno se tornou alto e todas as promessas de infra-estrutura, foram ignoradas pela empresa”, desabafa Padilha.

De acordo com os moradores, ao procurarem a Prefeitura de Pinhais informaram os problemas que vinham enfrentando, mas a resposta que obtiveram não foi das melhores. Ainda segundo os moradores, a prefeitura informou que a área é de invasão, não está legalizada no setor de habitações da cidade. A população não concorda com esta confirmação, “Como pode ser área de invasão se pagamos todos os anos o IPTU para a prefeitura (...)”, “Nem a imobiliária AZ Imóveis, nem a prefeitura querem nos ajudar, estamos de mãos atadas”, conta Padilha.

Samuel Nascimento comprou seu terreno confiando na promessa de infra-estrutura completa como: saneamento, manilhas, água, luz, abertura de ruas, creches e escolas, a realidade se tornou outra quando começou a construir sua tão sonhada casa.

Segundo Nascimento, há ruas no loteamento que existem nos mapas da cidade, mas na prática isso não funciona. “Locamos máquinas na esperança da abertura destas ruas, para melhorar o acesso as nossas residências, mas a prefeitura impediu nosso trabalho, alegando que toda a área estava irregular (...), procuramos então a imobiliária, mas dizem que este tipo de infra-estrutura é de responsabilidade da prefeitura”. “Estamos de mãos atadas e suplicamos ajuda, por isso procuramos o IPDC para orientação e entramos com ações na justiça.”

Há 2 anos houve uma grande enchente, todos os moradores foram atingidos e ninguém foi responsabilizado pelos danos. A população perdeu todos os móveis e parte de suas casas, muitas crianças ficaram doentes devido ao contato com a água suja. “Até hoje estamos vivenciando os prejuízos desta enchente, me endividei para comprar novos móveis”, conta Nascimento.

Outro problema é o deslocamento, pois não existe linha de ônibus no local, a única saída é pegar ônibus em Curitiba ou o ônibus que sai de Pinhais, mas para isso os moradores têm que enfrentar o matagal, a lama e o perigo de assaltos. Próximo da estrada por onde passam todos os dias, existe um ponto de venda de drogas e prostituição, o medo é constante.

Não há creches nem escolas nas proximidades das residências, “Temos que andar quilômetros se quisermos que nossos filhos estudem”, conta Valdir.

Valdir conta que a prefeitura da cidade informou que não vai iniciar nenhuma obra no local, enquanto a AZ Imóveis não regularizar sua situação. “Se continuarmos com a obra para abertura das ruas, as máquinas serão apreendidas pela prefeitura de Pinhais”. “Quando é época de eleição, os candidatos vêem até aqui, jogam cascalhos nas ruas e pedem voto do povo, e quando necessitamos de ajuda, todos os responsáveis desaparecem”.

Reinaldo França Rocha é proprietário de uma empresa que está localizada no loteamento. Conta que foram simplesmente abandonados pela prefeitura e pela imobiliária. “Não fizeram nenhum tipo de melhoria nas ruas, tudo que temos aqui é resultado da união dos habitantes do bairro.”

Baseada em falsas promessas, Cláudia Luciane Gomes comprou seu terreno e 3 meses depois que já residia no local, sofreu com enchentes, com o lixo, com o mau cheiro e com a lama. “Estamos lutando por melhorias, mas não é nada fácil, somos pessoas simples não dispomos de grandes posses para construir uma infra-estrutura no bairro, necessitamos de auxílio com urgência”, diz Claudia.

Quando Maria Cristiane adquiriu o lote gastou o que tinha e o que não tinha para aterrá-lo, conviveu por muito tempo com esgoto a céu aberto e diz: “Se quisermos uma vida e uma moradia melhor, teremos que fazer tudo sozinhos, contamos somente com a ajuda de nossos vizinhos”.
A população exige uma atitude que amenize as dificuldades que enfrentam, para que possam ter um futuro digno e uma moradia descente.

“Já procuramos os órgãos competentes e nada foi feito, esta situação é realmente inadmissível, por isto procurei o IPDC, única entidade que me deu apoio e orientação para que eu possa lutar por meus direitos de consumidora”, desabafa a moradora Glaci Tkaczuk.

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